
“No dia em que acreditar que há um Deus tenho de lhe pedir contas da minha alma trocada e duvido que ele saiba responder-me.”
Rosa Lobato de Faria in A Alma Trocada

“No dia em que acreditar que há um Deus tenho de lhe pedir contas da minha alma trocada e duvido que ele saiba responder-me.”
Rosa Lobato de Faria in A Alma Trocada

“Finalmente o prazer. Farrapos de fantasias eróticas de toda uma vida, numa espiral onde rodopiavam emoções, sensações, esquecimento próprio, loucura, aceitação do animal em mim, do grito, da fome, da liberdade de ser e saber que se é. Apesar. Mau grado. Não obstante. Que se lixe.”
Rosa Lobato de Faria in A Alma Trocada
Para esta semana deixo uma sugestão em português:
A Alma Trocada
Rosa Lobato de Faria
(Asa)

Gosto bastante de Rosa Lobato de Faria e, uma vez mais, a autora não me desiludiu. Um tema controverso. Quando me emprestaram o livro apaixonei-me de imediato pelo título. E esse mesmo título fez-me imaginar belas histórias, de frustração e revolta, de amor e traição, de conquistas e perdas.
Mas jamais imaginei que este romance abordaria a questão da homossexualidade. Devo admitir que não me é uma questão particularmente querida. Provavelmente nem teria começado a ler o livro se me tivesse apercebido da temática. Mas, no final, ainda bem que li.
A escrita de Rosa Lobato de Faria é sempre maravilhosa e faz qualquer assunto parecer insignificante, comparado com a forma que lhe dá. E talvez por isso eu tenha gostado tanto.
Fala-nos das dificuldades de um adolescente que se descobre homossexual numa família rígida e severa. Dos seus conflitos internos, das suas dúvidas e da sua condenada solidão. E esta foi a parte que mais me cativou. Esta vivência angustiada de quem não pode escolher o caminho mais fácil.
Teófilo é esse adolescente, que está prestes a casar-se com uma mulher, ainda que viva um intenso romance com um homem, Hugo. Uma vez cancelado este noivado, vamos assistir ao intensificar da relação gay, com paixão e entrega, mas também traição e promiscuidade. Teófilo sente deste sempre que a sua alma não lhe pertence. Não se sente ele. Não encaixa nos desígnios da sociedade. A sua alma foi, algures, trocada.
Houve uma parte do livro que me pareceu bastante escusada. Na verdade estava a gostar cada vez mais, até que surge um estranho episódio de atropelamento do protagonista e posterior rapto de uma criança amiga, que não só não se enquadra com a necessitada naturalidade na história, como vem cortar a mesma. De resto, gostei muito.
Como em todos os seus livros, a história é desenrolada com humor perspizaz e doce ironia. Adorei.
“Fecho-me no quarto, os automóveis miniatura nas prateleiras, o poster do Ayrton Sena, dos U2, os vídeos da vida animal, o computador avariado, o roupão da adolescência pendurado atrás da porta, curto nas mangas, o ursinho da infância escondido por cima do monopólio. O meu quarto de rapaz, o meu quarto de não saber quem era, o meu quarto cheio de dúvidas, de perguntas sem resposta, de solidão.”

“És tu que não percebes nada de amor. Tens um casamento estável, tranquilo, uns filhos óptimos, para ti o amor é um dado adquirido. Mas de um modo geral há um que ama e outro que se deixa amar.”
Rosa Lobato de Faria in As Esquinas do Tempo
Mais um domingo, mais uma sugestão:
Os Três Casamentos de Camilla S.
Rosa Lobato de Faria
(Asa)
Este livro de Rosa Lobato de Faria é uma história alucinante sobre a vida de Camilla S., uma autobiografia que a própria decide escrever aos 90 anos. Nesta idade, Camilla S. revê-se ao longo da sua vida e analisa a existência enquanto mulher. Mulher que amou. E se casou 3 vezes. Por obrigação, desejo ou amizade. Tendo a história do nosso país como contexto, ela descreve-nos as suas vivências e paixões. E vemos a jovem Camilla, ainda cheia de sonhos e de esperanças em relação ao amor, casar-se com um homem bastante mais velho, apenas por uma questão social. E sofrer por esse casamento sem amor, mas ao mesmo tempo, aprender e crescer com a vida.
Depois casa-se com um homem e aprende o amor na cama, o puro desejo. E, por fim, o amor da terceira idade, sereno e tranquilo, banhado pela doce amizade e cumplicidade. E sempre transversal aos 3 casamentos, o seu mais verdadeiro e inconcretizável amor.
Uma história maravilhosa, contada sempre com poesia na voz.
“Foi mais uma tarde de loucura e de sonho e, fosse qual fosse a faixa do tempo em que se encontrassem, sentiram-se, como todos os amantes, fora de qualquer espaço e de qualquer tempo. Fizeram um amor sagrado, um amor profano, um amor devoto, um amor transgressor, um amor nómada, um amor sedentário, um amor viajante por ares e mares e terras e rios e desertos e florestas, um amor de bichos, um amor de deuses.”
Rosa Lobato de Faria in As Esquinas do Tempo

“A verdade é que já te amava loucamente, é esse o termo. E desculpa a piroseira, mas quando se ama muito é assim. Ficamos ridículos e possidónios e dizemos só lugares-comuns e parvoíces, porque não há palavras para exprimir esta coisa que nos invade e nos oprime e nos sufoca e para a qual ainda não se inventou outra palavra que não seja amor.”
Rosa Lobato de Faria in As Esquinas do Tempo
Esta semana deixo uma sugestão de uma autora que recentemente nos deixou:
As Esquinas do Tempo
Rosa Lobato de Faria
Porto Editora

A autora traz-nos uma história sobre Margarida. Várias ou sempre a mesma, mas em épocas diferentes, quando essas linhas do tempo se cruzam em determinadas esquinas. Mergulhamos assim numa história alucinante que quebra todas as regras e convenções e que flui pela simples linha da imaginação.
Margarida é uma mulher determinada, professora de Matemática, que está a viver uma paixão intensa com Miguel. Após uma palestra em Vila Real, Margarida fica hospedada na velha Casa da Azenha. Ao adormecer, começa com umas sensações estranhas. E há aquele quadro na parede, que a intimida, que parece chamar por ela, e que lhe é tão familiar. Que lhe recorda Miguel.
O que Margarida não percebe é porque é que no dia seguinte já nada está igual. Tudo tem cem anos a menos do que ela. O quarto, as vestes, os hábitos. A família. E conhece o homem do quadro, Miguel.
É neste tempo, um século antes do seu, que Margarida vai compreender o significado do amor e a dureza daqueles dias.
Um livro que harmoniza poesia, romance e erotismo. Criatividade e inteligência. Com uma mística muito especial. Prende-nos a um livro, diferentes tempos.
Lê-se num ápice e no final resta a saudade. Poderia ter mais umas quantas páginas de viagens e experiências no tempo que nós nos perderíamos com todo gosto nesses recantos cronológicos. Magnífica obra!
“Outras interrogações a assolavam como, por exemplo, se as pessoas que consideramos geniais não serão apenas viajantes de tempos mais avançados que sabem aquilo que ainda não sabemos.”